25 de março de 2013

Alheio?

Cada um tem a sua própria caminhada. Cada um constrói a sua própria caminhada e sobretudo cada um deve aceitar (e não resignar-se!) a caminhada que a vida lhe dá.
O caminho não é perfeito, não é longo, não é curto, não é interminável, não é fantástico, mas tem de ser um caminho de pura e simples aprendizagem, pois cada um será a sombra daquilo que aprende ou até daquilo que quis aprender.
Nas vidas que correm por aí, tornou-se banal e normal, cobiçarmos a caminhada do vizinho, do colega, do patrão, do amigo, só porque ele tem um carro melhor, uma casa maior e até uma mulher mais jeitosa. Deixou de ser normal gostarmos da nossa própria vida, para apreciarmos de camarote a vida do outro, só porque sonhamos em ser aquilo que não somos e talvez nunca venhamos a ser.
Assim que somos despejados para o mundo, de imediato temos de abrir os olhos e chorar, pois a serenidade será presságio de que algo está mal, e que presságio trará a nossa serenidade a observar e “namorar” a caminhada do outro?
Cada um terá sempre a capacidade de ser feliz na sua própria caminhada, se simplesmente quiser ser melhor, não que os outros, mas sim melhor para si, para a sua aprendizagem, para a sua satisfação pessoal.
Cada um terá sempre a capacidade de cobiçar, e realmente será muito mais fácil, do que lutar, persistir ou acreditar, mas irá simplesmente morrer com o desejo de querer e nunca de querer realmente.
Acredito que a felicidade estará mais depressa ao meu alcance do que do meu vizinho, pois a minha felicidade e realização passará por mim, e nunca por ti, por tal acredito também, que a minha vida pode não ser melhor que a do vizinho, mas é a minha e é aquela que tenho e é o único bem que tenho só e só meu.
Caminhar é melhor acompanhado, mas ninguém caminha por mim!


20 de março de 2013

O Ultimo degrau


Não posso afirmar que foi durante toda a minha vida, pois quando somos pequenos nem sabemos caminhar, quanto mais subir a escada, contudo nos últimos anos da minha vida, percebi que escada queria subir, tracei metas, lutei por elas e consegui com todo o meu esforço, desespero e cansaço alcançar o penúltimo degrau da minha escada.
A subida não foi boa nem má, não foi rápida nem lenta. Foi a necessária e demorou tudo o que tinha para demorar para assim me oferecer todas as ferramentas que precisaria para construir o meu último degrau.
Durante anos acreditei que estaria a fazer o melhor por mim, para no futuro fazer o melhor pelos outros. Achei que a minha vida teria obrigatoriamente de passar por ali, pois só assim alcançaria o tão esperado degrau. Não saltei degraus para trás, mas também não galguei nenhum, subi um a um, muitas vezes com muito esforço pois as pernas teimavam em fraquejar. Contudo percebi que a minha formação ia passar por momentos deliciosos como alcançar degraus novos, mas também por momentos de fraqueza, onde alcançar um degrau, por vezes parecia uma miragem.
Nada foi uma miragem. A corrida até entrar numa Escola Superior de Alguma Coisa é tão rápida que nem percebemos como entramos, mas depois chega o tempo de investir tudo, inclusive aquilo que não há: investimos as nossas capacidades, o nosso esforço, a nossa determinação, a nossa confiança, o nosso (muito) dinheiro, muitas vezes em detrimento das relações familiares e afins.
Chego ao penúltimo degrau, e não posso avançar para o último, pois deste investimento tenho como retorno um papel que me atesta capacidade de algo, mas que não me garante o lugar no tão desejado, batalhado e mirado degrau.
Não, não estou desiludida, porque fiz o que tinha de fazer, o que queria fazer e como queria fazer, não fui a melhor aluna do meu curso, mas alcancei a minha formação não com esforço alheio mas com o meu, e serei um pouco daquilo que me ensinaram e um pouco daquilo que fui capaz de aprender.
Sim, sim recuso-me a sair do meu país para ir construir o último degrau noutro canto qualquer, pois aqui me formei, aqui acreditei que o meu país um dia teria um lugar para poder dar tudo aquilo que recebi.

Acho que me falta o cimento para construir o meu último degrau! Acho que me falta uma vaga! Acho que me falta um país!

17 de março de 2013

Vento


Ó Vento que fazes andar os moinhos e dançar as árvores, vem e traz-me um beijo bem quente ou frio e um abraço bem apertado e que me leve para onde ainda possa sonhar.
Ó Vento que andas por tantas terras e lugares vem e conta-me histórias que ainda me façam sonhar e acreditar que posso viver neste mundo.
Ó Vento que conheces tantas pessoas de tantas raças, feitios e gostos vem e diz-me como posso ainda sonhar com uma vida onde as pessoas se respeitam, toleram e amam.
Ó Vento que conheces tantas línguas, vem e diz-me como o mundo pode ser um só.
Ó Vento que ouves tantas angústias, conta-me como sobrevivem pessoas que vivem pior que eu.
Ó Vento que assistes a tantos crimes, segreda-me como carregas o peso de uma confissão tão obscura como o mal (gratuito).
Ó Vento que és testemunha de tantos amores, com que olhos vês juras de amor a desaparecerem por pequenas chuvas?
Ó Vento, que na primeira fila presencias, as guerras, fomes e mortes, diz-me se este Mundo ainda tem solução!
Ó Vento que és tão livre e puro, diz-me onde ainda mora o sonho, o amor, a coragem, o bem, a tão esquecida felicidade!

Ó Vento que de tão leve que és, conta-me bem baixinho, como carregas este pequeno Mundo cheio de ti e cheio de nós.

13 de março de 2013

A que horas brincam?

Ao início de cada ano escolar e de todas as atividades que se regem pelo mesmo calendário, somos “confrontados” com crianças super atarefadas.
Diariamente ouvimos pais, com expressões semelhantes a “depois de sair da escola, tem natação, dança, futebol, musica, karaté…”, ou seja após o período escolar a criança tem um sem número de atividades, todas elas dirigidas por outrem, onde o espaço para a criatividade e espontaneidade da criança fica muitas vezes esquecido.
É certo que todas estas atividades são bastante importantes para a formação das crianças em diferentes áreas e que sem dúvida alguma enriquecem este futuros adultos, contudo, pergunto, haverá necessidade de serem todas ao mesmo tempo?
Em tempos idos, não há muito tempo, quando se pensava em crianças era implícito pensar em brincadeira, em tempo para brincar, e nos tempos que correm ao pensarmos em crianças, pensamos primeiramente em todas as multi tarefas que têm diariamente.
Enquanto crianças, é nas brincadeiras sozinhos ou a pares, que estes desenvolvem a sua criatividade, espontaneidade, a relação com os outros, e sobretudo inúmeras habilidades de forma natural. Isto tudo, porque na brincadeira não está implícito qualquer compromisso nem tão pouco o planeamento de algo – é tudo genuíno. Porém, sabemos que, hoje mais do que nunca a criança precisa de estar em contacto com regras, e para tal, além do que já evidenciei em cima, as atividades extra escola são muito boas para adquirirem regras e compromissos.
As atividades são importantes, mas porque não de forma faseada? A criança depois de sair da escola, vai para as atividades (que possivelmente gosta), depois vem para casa, janta, faz os trabalhos da escola, e em seguida vai dormir, e agora pergunto, e a que horas brincou? A que horas “treinou” a sua criatividade?
Brincar não necessita de hora marcada, mas sim de tempo!

Texto anteriormente publicado no Jornal "O Dever", em Setembro de 2012

9 de março de 2013

Ainda se lembram do que é o respeito?


Há alguns pares de anos, não muitos, respeitar e ser respeitado era tão simples até como ter sede, frio ou calor, fazia parte de nós.
Agora, o respeito pelo meu semelhante e até por mim mesmo é algo do passado, arriscaria quase, algo da história, algo que só se relata, já não se vive.
Do mais simples ao mais surpreendente o respeito foi ficando dissimulado, deixou de ter peso na nossa cabeça, nas nossas acções e até nas nossas palavras, pois para alcançarmos as nossas fracas metas precisamos de pisar e espezinhar o respeito e a compaixão, pois achamo-nos superiores, superiores ao simples acto de respeitar.
Na necessidade de abolir o respeito da nossa existência, conseguimos abolir também a capacidade de relação com os outros, pois os alicerces, as paredes, o chão, o telhado, que formam uma relação, por mais que evolua o tempo ou o ser humano, será sempre o respeito. Por tal torna-se um tanto ou quanto confuso perceber como se sobrevive sem relação, sem respeito.
No entanto a confusão, a nuvem negra, desfaz-se quando vemos alguém a troco de nada, destratar, falar mal, ignorar, desprezar alguém. Só porque sim esquecemos que ter respeito gera respeito e sobretudo gera gerações capazes de viver e olhar o mundo com gratidão, com o valor que ele merece.
Desprezamos o mais velho, o professor, o pai, o vizinho, o amigo, sem qualquer razão, simplesmente porque arrumámos o respeito no fundo de uma grande gaveta, e para o irmos buscar temos de desarrumar o nosso orgulho e a nossa superioridade.

Respeito? É um filme?
- Sim, mas daqueles de terror!

6 de março de 2013

Caminhar Lado a Lado

Dar as mãos, sentir a força e o calor, e seguir o caminho lado a lado, tornará tudo mais fácil.
O trilho do nosso caminho, muitas vezes é tortuoso, tem pedras e espinhos, mas outras vezes o mesmo caminho consegue ser direito, onde a caminhada se torna prazerosa.
Quantas e quantas vezes, vamos percorrendo um caminho que não é nosso ou que não gostamos? Um caminho onde só vemos o escuro, onde nem o queremos partilhar com quem mais gosta de nós.
Será, assim tão mais fácil só ver o escuro? O amargo?
BASTA!                                                       
O caminho pode e deve ser brilhante, feliz, partilhado, desfrutado e alegre. Cada um de nós, pode perder imensa coisa durante o caminho, mas a capacidade de olhar, dar as mãos e seguir em frente deve ser o bem mais protegido de todos.
O sol vai brilhar nas nossas vidas, mesmo quando chove, pois nenhuma semente irá germinar se não tiver sol, mas também não germina se não tiver água. O sol indicará o melhor caminho, aquele caminho que temos medo de pisar, por simplesmente acharmos que a felicidade não é para nós, (às vezes nem para nós nem para ninguém). O sol dará o calor necessário a cada coração para que este se renda à vida, se renda à capacidade de dar as mãos, à capacidade de pisar o terreno fértil da felicidade.
De facto os caminhos podem ser variados, longos ou curtos, mas o caminho é bem melhor quando damos as mãos e seguimos lado a lado.

Caminhar, será viver, será partilhar…

2 de março de 2013

Casa Cheia


Casou aos 21 anos, feliz e cheia de amor.

O amor cresceu no seu coraçãozinho do alto da janela, para onde todos os dias corria para o ver passar. Nunca se tinham falado, mas todos os dias cruzavam um olhar cheio de paixão, de cumplicidade, de vida.
Certo dia, brotou a coragem e pediu a mão da rapariga em casamento. Era notória a felicidade, mas sobretudo a vontade de viver aquele grande e eterno amor, por tal daí ao casamento não foram largos anos, mas os necessários.
Ora, depois do casamento, vieram os filhos, cinco filhos, três fortes rapazes e duas belas raparigas. Anos mais tarde, nasceram os netos, e até bisnetos. Que casa cheia, alegre, viva, feliz!
Cada ano que passava trazia ainda mais amor ao coração de cada um, viviam a sua vida carregados de paixão, tal e qual a que sentiam no dia em que o pai deu autorização para o casamento.
Nada, nunca, será eterno, e um dia, alguém o levou! Para onde foi não se sabe bem ao certo, mas contam que foi para aquele lugar que deixa arrasado de saudades quem por cá fica.
As saudades ficaram tal como o amor, mas agora não há a quem dá-lo, pois os filhos, os netos, os bisnetos esqueceram-se de onde veio o amor que os gerou, e esqueceram-se de ir espreitar à janela.
Agora estou velha e resta-me esta velha casa, com esta velha janela, onde ele já não passa, onde eu estou sozinha, e onde ficarei para sempre.

Enviuvou aos 78 anos, triste e cheia de solidão!