2 de março de 2013

Casa Cheia


Casou aos 21 anos, feliz e cheia de amor.

O amor cresceu no seu coraçãozinho do alto da janela, para onde todos os dias corria para o ver passar. Nunca se tinham falado, mas todos os dias cruzavam um olhar cheio de paixão, de cumplicidade, de vida.
Certo dia, brotou a coragem e pediu a mão da rapariga em casamento. Era notória a felicidade, mas sobretudo a vontade de viver aquele grande e eterno amor, por tal daí ao casamento não foram largos anos, mas os necessários.
Ora, depois do casamento, vieram os filhos, cinco filhos, três fortes rapazes e duas belas raparigas. Anos mais tarde, nasceram os netos, e até bisnetos. Que casa cheia, alegre, viva, feliz!
Cada ano que passava trazia ainda mais amor ao coração de cada um, viviam a sua vida carregados de paixão, tal e qual a que sentiam no dia em que o pai deu autorização para o casamento.
Nada, nunca, será eterno, e um dia, alguém o levou! Para onde foi não se sabe bem ao certo, mas contam que foi para aquele lugar que deixa arrasado de saudades quem por cá fica.
As saudades ficaram tal como o amor, mas agora não há a quem dá-lo, pois os filhos, os netos, os bisnetos esqueceram-se de onde veio o amor que os gerou, e esqueceram-se de ir espreitar à janela.
Agora estou velha e resta-me esta velha casa, com esta velha janela, onde ele já não passa, onde eu estou sozinha, e onde ficarei para sempre.

Enviuvou aos 78 anos, triste e cheia de solidão!

2 comentários:

  1. Referes-te a alguém em concreto ou pretendeste simplesmente reportar-te à solidão que cerca muitos idosos?
    Seja como for, é um texto com sentimento. Um sentimento em contra-ciclo com o individualismo feroz dos nossos dias...

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    1. Não fala de Ninguém em particular, é um olhar geral sobre a nossa sociedade que esquece os idosos e os deixa morrer na solidão.
      O texto é da Carmen.

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